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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O TESTE DO CASCALHO



Rubens Pereira


Seu nome é Uessilei. Assim mesmo: U-E-S-S-I-L-E-I, uma aberração etimológica de origem desconhecida; uma onomatopéia com som parecido ao de um espirro ruidoso. Seu pai, sempre que perguntado se o erro fora dele ou do escrevente do cartório, limitava-se a sorrir, enigmático, um riso maroto e contido, que apenas entortava para cima os cantos do bigode grisalho. Isso só aumentava as suspeitas de Uessilei de que aquele prenome fora gerado propositadamente, concebido por uma sádica libertinagem paterna. (Talvez ele tivesse nascido em uma má hora, vai saber...)

Bem, mas o Uessilei (tratem de se acostumar, por favor), apesar do prenome, crescera esperto e inteligente. “Uma raposa nos negócios e um falcão com as mulheres”, era assim que o descreviam, desde os primórdios.

Por pura e convicta opção, Uessilei ultrapassou solteiro a cabalística barreira dos quarenta e cinco anos. Aliás, “solteiríssimo!”, como ele costumava enfatizar, erguendo e abaixando os braços sucessivamente, como se estivesse batendo asas, numa tentativa de mostrar a amplidão de sua liberdade.

Uessilei morava em uma pequena mansão, no luxuoso condomínio “Alphaville”. Todavia, por praticidade, mantinha, também, um quarto-e-sala no Edifício Campos Elíseos, prédio residencial antigo e mal cuidado do centro de São Paulo, perto de onde ficava o escritório central da sua empresa. Quando saía tarde do trabalho, o que não era raro acontecer, Uessilei passava a noite no apartamento, que igualmente lhe servia de “matadouro”, ou melhor, de local onde ele “abatia as lebres” - mulheres de quase todos os gêneros que lhes caíam nas garras permanentemente eriçadas.

E foram centenas. E todas subiram ao apartamento “por amor”. Uessilei se gabava de nunca, nem na mais tenra e pueril idade, ter pago um centavo sequer de michê a uma prostituta.

Entretanto, Uessilei começou a denotar preocupação com o seu celibato, no dia em que, ao “bater as asas” para acompanhar a expressão “solteiríssimo”, sentiu uma fisgada no peito e, supersticioso que é, tomou aquilo como um aviso dos céus. Colocou na cabeça que chegara a hora de casar-se.

Mas, com quem?

Uessilei pôs-se a vasculhar as suas muitas agendas repletas de nomes femininos, criou uma planilha no computador interligada a um banco de dados, inseriu algumas informações, peneirou, filtrou, cismou a valer e chegou finalmente a duas mulheres: Beatriz e Ivonette.

Beatriz fora sua namorada durante uns sete meses; Ivonette não conseguiu passar do quinto. Beatriz era comerciante, tinha três lojas de roupas femininas espalhadas pelo Bom Retiro; Ivonette era gerente de uma agência da Caixa Econômica Federal. Ambas aparentaram ter sofrido o diabo quando ele as deixou, mas talvez ainda gostassem dele. Não custava tentar...

Uessilei telefonou-lhes quase que concomitantemente. E conseguiu marcar os dois encontros a pretexto de matar saudades, pôr a conversa em dia, etc..

Na quarta-feira, encontrou-se com a Beatriz, em um requintado restaurante italiano, já que ela sempre gostou de massa e de um chianti de boa safra. Depois do jantar, quase sem perceberem, eles já estavam se atracando no “matadouro”.

Com a Ivonette, foi na quinta-feira. E, o enredo, quase o mesmo (com exceção do restaurante, porque a Ivonette gosta de sushis): comida, bebida, papo e... Campos Elíseos.

Uessilei continuou saindo com as duas sem nenhum peso na consciência. Dizia que estava simplesmente fazendo test drives e que o seu futuro dependia de uma escolha acertada.

Depois de três meses de experiências, porém, ele estava mais em dúvida do que no começo. A Beatriz era encantadora, inteligente, espirituosa, culta e fogosa; a Ivonette, mais tímida, compensava essa deficiência com um jeito de dona do lar, um ar de retidão inabalável, típico de mulheres que, quando estão sozinhas, não olham para os lados nem para atravessar a rua. Mesmo assim, nos braços do amado, a Ivonette do olhar encabulado transformava-se numa messalina desvairada.

Difícil de escolher? Põe difícil nisso. Uessilei estava a um passo da loucura. Chegou até a procurar um padre para tentar dirimir a sua dúvida atroz, mas, logo no segundo parágrafo da história, o religioso o expulsou da igreja, esgrimindo um crucifixo e vociferando sonoros “vade retro, Satanás”.

Uessilei também foi procurar um psicólogo recomendado por sua secretária, mas percebeu à primeira vista que o cara era afeminado. “Como é que um indivíduo desse vai poder palpitar sobre mulher?”, ele pensou, enquanto saía sem a consulta.

Nos bares, então, nem se fale: quando não estava com uma ou outra namorada, Uessilei podia ser facilmente localizado em um dos muitos botequins que rodeiam o Campos Elíseos. Pedia opinião para amigos, para conhecidos, para desconhecidos, para os garçons e os copeiros, para quem quer que se atrevesse sentar à mesa ou na banqueta e pedir uma bebida. Sem exceção, todos lhe respondiam que esse é o tipo de decisão que um homem deve tomar sozinho, no máximo com a ajuda do travesseiro.

Até que um dia, depois de horas conjeturando, Uessilei viu um senhor entrar no bar e pedir um conhaque de boa linhagem. Ele nunca havia visto o homem por aquelas bandas. Parecia ser uma pessoa respeitável, trajava terno e usava gravata. Uessilei pensou: “Por que não?”, apresentou-se e engatou uma conversa com o estranho.

Depois de ouvir o caso todo, o homem disparou: “O senhor ainda não fez o teste mais importante!”. Uessilei retrucou: “Mas como? Eu já fiz todos os testes possíveis, imagináveis e inimagináveis. Que teste é esse do qual o senhor está falando?”. O homem de terno respondeu: “Elementar, meu caro Uessilei. Ainda falta o teste do cascalho!”.

“Teste do cascalho? Acho que esse cara anda assistindo demais ao programa do Ratinho!”. Enquanto pensava, Uessilei perguntou:

_O senhor poderia fazer a gentileza de explicar que raio de teste do cascalho é esse?

_ O teste do cascalho é o mais importante numa relação que se pretenda estável. Deveria ser exigido por lei, assim como os exames pré-nupciais. Me diz aí: do que é que uma mulher mais gosta?

_ De homem, ué!

_ Que nada, Uessilei! Você fez confusão com travesti. Traveco, sim, gosta de homem. As mulheres gostam é de dinheiro. Em maior ou menor intensidade, é o l’argent que faz os olhinhos delas revirarem. O importante é exatamente isso: poder medir a intensidade dessa paixão inata pelo vil metal; ter certeza de que não é apenas isso o que elas estão buscando, que ainda sobrou um quartinho de dois por dois, em seus coraçõezinhos gelados, para sentimentos mais nobres. Para resolver quem deverá ser a sua companheira, basta aplicar o teste do cascalho. O “modus operandis”, a forma de aplicar o teste, isso fica a critério da sua imaginação.

Impressionado com aquela revelação, Uessilei desviou o rosto para pedir ao garçom que servisse mais um conhaque ao seu novo guru, porém, quando voltou-se, viu que ele já havia saído ou desaparecera no ar, feito um gênio da lâmpada. “Será que esse senhor era um anjo enviado pelos céus para me tirar desta sinuca de bico?”, Uessilei matutava enquanto bicava o copo de conhaque. E o efeito do álcool logo lhe trouxe a inspiração salvadora. No dia seguinte, ele daria início ao “teste do cascalho”.

Oito e meia da manhã. Uessilei telefona para a Beatriz e lhe diz, de bate-pronto, que o jantar programado para aquela noite teria que ser cancelado. Ante a surpresa da namorada, Uessilei emendou dizendo que estava sem dinheiro até para pagar um restaurante, que sua empresa fora mortalmente lesada por uma arapuca e ele se encontrava falido. Todavia, ele tinha certeza de que se ergueria novamente em alguns anos e que o amor dela não diminuiria devido a essa situação passageira. A seguir, desligou com um beijo e o habitual “te amo”.

Uessilei aproveitou o embalo, ligou para a Ivonette e recitou a mesma trágica cantilena para desmarcar o almoço do dia seguinte. “Um beijo, te amo” e gancho.

No resto do dia, Uessilei não teve notícia alguma da Beatriz ou da Ivonette. Fato estranho, porque elas ligavam diariamente e quase sempre por várias vezes.

No outro dia, também nada. Decidiu ele mesmo entrar em contato com as duas e ouviu desculpas esfarrapadas diferentes para uma mesma revelação arrematadora: “Vamos ter que dar um tempo, Uessilei”.

Uessilei não sabia se chorava ou se gargalhava. Seu ânimo passou de um espanto indignado para a mais desmedida euforia. Estivesse onde estivesse aquele anjo de gravata, ele o abençoava, pleno de gratidão.

Depois de tomar fôlego, Uessilei foi à janela e ficou assistindo o trottoir das mariposinhas que fazem ponto ao redor do Campos Elíseos. Olhou, pensou e disse: “Nunca é tarde para começar. Vamos às meretrizes, pois, que essas ao menos estipulam o preço antes”.

Saiu e fechou a porta com um sorriso escancarado.

4 comentários:

Xavier Zarco disse...

Caro Rubens,

Que bom saber que uma mera observação no meu blog e o desafio dos teus amigos da grande nau que é a Terra da Garoa te fizeram criar este espaço. Agora é tempo de escrever, escrever e escrever que é a nossa missão.
Um abraço

Xavier Zarco

Anônimo disse...

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